O velho misterioso

José Vitor Fontinele

Claudino tem quarenta e sete anos e há tempos é vigia noturno, submetendo-se a passar por lugares isolados sob ausência de luz, uma escuridão sem fim, levando-o a pensar muitas vezes que ficaria preso na penumbra da noite e nunca mais veria qualquer forma de luz, além da projetada à frente pelo farol de sua moto que por falhas em seu sistema de vez em quando apaga e, ao acender novamente, é refletido pelos olhos de uma criatura que passa pela sua frente numa velocidade descomunal, e em alguns casos, chegando mesmo a ficar lhe encarando por alguns segundos. Ele contou que há alguns meses estava sendo pago por um velho que aparentava ter uns oitenta anos, com cabelos e barbas grandes, uma aparência dissecada e uma grande cicatriz em seu rosto dividindo seu nariz em duas partes fora os grandes olhos negros que findavam deixando-o com um certo pavor interior ao ponto de lhe tirar a fala. Além de, nas vezes em que o viu, estar sempre com as mesmas vestes sujas e meio rasgadas, como se estivesse sido submetido a alguma modalidade de tortura. Em contrapartida ao que o velho aparentava, morava em uma casa suntuosa com uma arquitetura europeia bem trabalhada e sombria, com estátuas de gárgulas em sua parte frontal superior, grandes colunas gregas e um lance de degraus que lhe davam um aspecto de templo. Além de todos esses fatores capazes de fazer tremer de medo qualquer um que estivesse em seu lugar, a casa é numa localidade rural e tão isolada que se leva quase uma hora para chegar. Mas seu Claudino disse que o velho pagava muito bem. Às doze da noite, hora em que seu Claudino passava pela tenebrosa casa, o desespero batia, algo pairava sobre seu ser ao ver através de uma das várias janelas a sombra de alguém segurando uma faca, supostamente o velho e fazendo gestos verticais incessantes, de cima para baixo, como se estivesse com muita dificuldade em cortar algo e ao som de uma ópera ensurdecedora, que seria um grande alívio se seu espírito abandonasse seu corpo e fosse o mais longe possível daquele lugar que lhe causava tanto pavor, contudo o seu compromisso o fazia superar tudo isso e continuar seu trabalho, mesmo mediante a tantos motivos para desistir de vigiar aquela casa que tanto o aterrorizava. No entanto, isso não durou muito tempo, não depois que seu Claudino, certa noite, ao adentrar a casa sob uma mistura de curiosidade e medo para ver a misteriosa sombra que sempre via em uma das janelas do andar de cima, deparou-se com um velho, mas não o mesmo que lhe pagava para vigiar a casa. Esse aparentava ser mais conservado e estava bem vestido, cortando carnes na cozinha. Assustado e segurando firmemente a faca apontada para seu Claudino, o velho perguntou o porquê da visita àquela hora da noite, principalmente de alguém que ele não conhecia. Seu Claudino ficou sem entender, e perguntou para ele: “Como assim você não me conhece? Sou pago por você para vigiar sua casa!”. O velho disse: “Ambos devemos estar enganados. Não paguei a ninguém para isso! Diga o que realmente veio fazer aqui! É um ladrão tentando me enganar para depois me matar e roubar o que tenho de valor, mas não caio nessa! Saia daqui agora ou não hesitarei em arremessar esta faca em você, ouviu!? Saia agora de minha residência, sujeito que não conheço!”. “Mas você não é o Antônio Calvino que me paga já faz três meses para vigiar a sua casa?” O velho exclama: “Como assim!? Esse é o nome do meu irmão gêmeo que morreu há aproximadamente um ano ao cair de um cavalo e bater a rosto num machado que eu havia deixado sobre o chão com o fio da lâmina para cima, próximo a um tronco no qual eu cortava lenha. Ele foi enterrado aqui mesmo, num cemitério situado atrás da casa em que há séculos são enterrados meus familiares, sendo o mais recente meu irmão, restando agora apenas eu para partir e acredito que devido a minhas péssimas condições de saúde, minha partida será antecipada. Se você quiser posso levá-lo até o túmulo”. Pasmo com o que acabou de ouvir em relação ao velho, o vigia disse, com uma voz trêmula e pouco inteligível: “sim, claro”. No caminho, o vigia perguntou sobre a carne que ele estava cortando todas as noites no horário em que passava. O velho respondeu: “Ah, a carne!? Provém de um pasto aqui perto em terras que herdei de minha família. Aos sábados vou vendê-las em açougues e comércios lá na cidade. Não é um bom negócio, mas é o que preciso fazer para me manter. Antes éramos eu e meu irmão, mas, como você já sabe…”. Sensibilizado: “Sinto muito pelo que aconteceu com ele, imagino como se sente”. Ao chegarem à cova do velho, anota-se em seu túmulo, no epitáfio: Aqui jaz Antônio Calvino.

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